Entre o passado e o presente: o Arquivo Histórico de Blumenau

Por Martin Kreuz, historiador formado pela Furb <meu_nomemk@yahoo.com.br>

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. [...] Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu.”

Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história

Quadro de Paul Klee, intitulado Angelus Novus

Blumenau lida de forma esquizofrênica com sua História: de um lado, a celebração ritualizada de uma narrativa histórica de fundação e desenvolvimento da cidade, privilegiando determinados aspectos alusivos à germanidade e tornando invisíveis outras culturas e formas de experiência; de outro, o descaso e abandono dos espaços e mecanismos de produção, armazenamento e divulgação da cultura histórica local.

Por isso, chega em boa hora o anúncio da aprovação, pelo Ministério da Cultura, do projeto de construção de um novo espaço para o Arquivo Histórico Municipal. Inscrito pela Lei Rouanet, visa captar recursos de empresas da localidade, que seriam beneficiadas com a renúncia fiscal do governo federal, na modalidade conhecida como mecenato – o que demonstra o descompromisso do poder público municipal com a instituição histórica, pois a responsabilidade dos recursos necessários para a nova edificação é repassada à iniciativa privada, e desobriga o Executivo a buscar soluções públicas para um organismo que precisa ser público, pois que é o responsável pela tarefa de armazenar e possibilitar o acesso a fontes sobre todos os agentes históricos.

Uma das principais justificativas para o novo local é a incapacidade do atual espaço em armazenar e colocar à disposição dos pesquisadores toda a documentação detida pela instituição. Quem conhece as suas instalações sabe que estas não oferecem as mínimas condições de guarda de todo o acervo do Arquivo Histórico. Os atendentes precisam espremer-se por entre estantes abarrotadas e os pesquisadores muitas vezes tem de improvisar seu espaço de trabalho. Além disso, a estrutura não oferece condições de acessibilidade a idosos e deficientes físicos.

A principal crítica até agora dirigida por alguns personagens da cidade ao projeto baseia-se em seu desenho arquitetônico, de estilo modernista. Os argumentos detém-se no fato de não ser um desenho alusivo à germanidade – à semelhança das edificações dos Correios e da Ampe, ambos em estilo enxaimeloso¹ – e, portanto, destoar da tradição local. Mais que uma questão estética ou de gosto pessoal, a ideia que embasa estes argumentos possui implicações políticas significativas a respeito da construção da história local, e por isso precisam ser problematizados.

Foto realizada durante as oficinas do projeto "Patrimônio em Movimento", ministradas pelos professores Ricardo Machado e Darlan Schmitt em 2010. Fonte da foto: http://www.flickr.com/photos/m_kreuz/

A técnica enxaimel é atualmente reconhecida como o estilo arquitetônico típico da cidade, porque herança dos colonizadores de origem germânica que aqui aportaram. Assim, é facilmente perceptível a problemática em se construir um Arquivo Histórico – o lugar privilegiado de armazenamento das fontes históricas e, por isso, o ator central no processo de construção da História – com referências a uma identidade: afirma-se tacitamente o lugar privilegiado desta identidade na história daquela localidade. Um Arquivo Histórico em enxaimel simboliza que os atores referenciados pela arquitetura são “os que importam” conhecer e relembrar na cidade. Os que não se inserem nessa identidade teriam, então, um estatuto de importância secundária.

Ademais, como historiadores, nossa primeira tarefa é lembrar continuamente que a História é sinônimo de transformação – “Voltar para trás é que é impossível. O meu relógio anda sempre para a frente. A História também”, nas palavras de Oswald de Andrade em Serafim Ponte Grande. Mas como poderíamos cumprir adequadamente essa exigência, se nosso Arquivo Histórico simbolizasse justamente a tentativa de imobilizar um passado já passado? Por isso, tornam-se ainda mais importantes as palavras proferidas pela diretora do Arquivo Histórico-Museológico de Blumenau, Sueli Petry, na Câmara de Vereadores da cidade quando da apresentação do projeto, no dia 15 de março: “O projeto causa impacto pela modernidade, é um prédio contemporâneo e foge daquilo que se vem produzindo. A História não pára, é dinâmica, e nossa arquitetura deve estar neste contexto”.

¹Ao denominado “verdadeiro enxaimel” opõe-se costumeiramente o “falso enxaimel”, “enxaimeloso” ou “enxaimelóide”. A distinção básica é o primeiro ser uma técnica de construção com o travejamento de madeiras e o preenchimento com tijolos; já o segundo, é caracterizado pela pregação de tábuas na fachada, em uma imitação daquela técnica. O assunto foi matéria no Jornal de Santa Catarina em 23/07/2010.

Dados:

Matéria do Jornal de Santa Catarina sobre a ampliação.

Detalhes do projeto de ampliação.

Texto do Márcio Cubiak sobre o projeto.

Texto originalmente publicado no jornal Expressão Universitária, maio de 2011.


About these ads
Esse post foi publicado em Das coisas que escrevo. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Entre o passado e o presente: o Arquivo Histórico de Blumenau

  1. Anônimo disse:

    Muita boa colocação sobre o arquivo histórico, é notavél que as autoridades tratam com descaso algo que simboliza a história de nossa cidade, e quem frequenta o lugar sabe da dificuldade que é achar algo no meio dos minusculos corredores da Fundação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s